O Banho de Bacia

A casa era simples, daquelas que rangem baixinho quando o vento passa, como se também quisessem conversar. As paredes de madeira guardavam o cheiro do tempo, misturado com o da querosene que iluminava tudo num tom amarelado, quase aconchegante. O lampião ficava ali, pendurado, firme, como se fosse parte da família.

O banho não vinha de chuveiro nem de torneira elegante. Era de bacia. Água aquecida com cuidado, levada até o quarto de banho improvisado. O xampu... bom, aquilo parecia mais uma lembrança do que um produto — pequeno, contado, quase uma amostra que a gente usava como se fosse ouro.

Mas, curiosamente, nunca me pareceu pouco.

Eu não via aquilo como dificuldade. Era rotina, era vida, e de algum jeito, era até divertido. No final do banho, vinha o momento que eu mais gostava: levantava a bacia devagar, sentindo o peso da água nos braços, e virava tudo de uma vez sobre o corpo. Às vezes escapava da mão antes da hora, pesada demais, e a água descia meio desajeitada, arrancando risadas. Era bagunça, era leve.

E não éramos só nós. Quase toda a vila vivia assim. Casas simples, gente simples, mas cheia de histórias. Era entre os anos 60 e 70, um tempo de poucas posses, mas de uma riqueza difícil de explicar hoje.

O curioso é que, olhando pra trás, não lembro de falta. Lembro de calor humano, de criatividade, de um jeito de viver onde o pouco bastava — e às vezes até sobrava.