O frio no Rio Grande do Sul sempre teve um jeito próprio de chegar. Não era só a temperatura — era o conjunto. Nos anos 60 e 70, na nossa vila, quase não havia ruas com calçamento. A maioria era de chão batido, e isso parecia puxar ainda mais o frio para perto da gente. As casas, em grande parte de madeira, ficavam espaçadas, deixando o vento correr livre, sem muito obstáculo.
Dentro de casa, o inverno também se fazia presente.
Não havia aquecedor, nem conforto moderno. Havia improviso — e criatividade. Um dos recursos mais marcantes eram as garrafas de vidro com água quente. Aquece-se a água com cuidado, no ponto certo: quente o suficiente para aquecer, mas não a ponto de trincar o vidro. Depois, elas eram levadas para a cama, colocadas bem na parte dos pés, como quem prepara o terreno antes de deitar.
Era um gesto simples, quase um ritual.
A gente entrava na cama ainda sentindo o frio nos lençóis, mas aos poucos aquele calor improvisado começava a se espalhar. Não era um calor intenso, nem imediato — era gradual, discreto, suficiente. E, de algum modo, ajudava a gente a relaxar até o sono chegar.