O dia não começava com despertador. Começava com som.
Era o padeiro.
Antes mesmo do sol ganhar força, eu já ouvia o anúncio dele pela rua de chão batido. Não era voz, nem sino. Era o relho batendo na lateral da carroça — um som seco, metálico, repetido no mesmo ritmo de sempre. A carroça, fechada como um pequeno furgão, parecia feita de um metal fino, talvez zinco. Aquele barulho virava um tipo de relógio para a vila inteira. Quem precisava saber a hora, sabia por ele.
Lá dentro de casa, minha mãe já estava de pé. Preparava minha mamadeira, o primeiro café do dia, ainda no silêncio meio sonolento das paredes de madeira. Eu pegava o copo, às vezes ainda com as mãos quentes de sono, e ia até a janela.
Era ali que o mundo começava pra mim.
A rua ainda estava meio escura, mas não era uma escuridão qualquer. Como quase não havia luz elétrica, o luar e as estrelas davam conta do recado. Era uma luz suave, espalhada, dessas que não incomodam os olhos recém-abertos. Tudo parecia mais calmo, mais lento, quase suspenso no tempo. Eu ficava ali, olhando o dia nascer devagar, enquanto o som da carroça se afastava.
Logo depois, vinha o caminho até a casa da minha avó.
Era ela quem cuidava de mim enquanto meus pais iam trabalhar. E como toda avó, ela não apenas recebia — ela acolhia. Ali vinha o complemento do café da manhã, feito com aquele cuidado que só quem tem tempo e afeto sabe dar. Era cedo, muito cedo. Mas era assim para todo mundo.
Era o tempo em que o trabalho começava antes do sol firmar no céu. A era industrial já tinha chegado, e com ela a pressa, os horários, as rotinas puxadas. Mesmo numa cidade pequena, o ritmo era outro. E ainda assim, no meio disso tudo, havia uma espécie de calma escondida nas pequenas coisas.